Coração


Cheguei à conclusão que ele, o Sr. Falamansa, é o mal necessário. Afinal, alguém tem que alimentar o sistema, não é mesmo? Alguém tem que manter a lona podre sobre o Circo, para que todos continuem lá dentro, rindo das palhaçadas mais sem graça que eu já vi, enquanto o fogo se alastra nas arquibancadas...


Você está ouvindo um barulho estranho? Não, não é o aspirador de pó da dona Leda desta vez.

Durante a noite, alguma coisa estranha ocorre, mas eu nunca sei o que é.
Penso que estamos valorizando demais toda informação escrita, enquanto outras formas de conhecimento poderiam ser adquiridas diretamente da realidade, movimentando-se pelas ruas, pelo espaço, cheirando, sentindo os vários odores; olhando, vendo, enxergando cada detalhe anteriormente desconsiderado pelo ego, encoberto pelo manto da vaidade.
No dia seguinte, com a aproximação da Páscoa, as coisas aconteceram de forma ainda mais estranha. Na viagem de ônibus para o escritório, todos os passageiros, exceto o motorista e o cobrador (e eu, é claro), pareciam ser a mesma pessoa, ou pelo menos tinham o mesmo rosto.
Atravessando a rua, a faixa de pedestre me parece um jogo da velha, e eu me sinto um velho coelho branco de olhos vermelhos, não gordo, mas magérrimo. Lembro-me então da cigana do dia anterior. Ela deve ter me enfeitiçado quando lhe lancei aquele olhar 42, só pode ser isso. Deve estar ocorrendo algum problema com o tempo, imagino. Algum problema que nós não podemos perceber, e que eu apenas consigo intuir.

Sigo assim, intuindo pelas ruas, correndo atrás do vento, cumprimentando as pessoas, empinando capucheta, matando meu tempo, antes que ele me devore, me decomponha, ou me transforme em algum dos meus imaginários algozes.