Ouvidos

Não tenho razão. Venho de uma linhagem de seres essencialmente emocionais, que agem por impulso, que leem apenas as primeiras páginas de todo bom romance, mas que nunca, de fato, mergulham para conhecer as profundezas da vida e recolher pérolas.

Penso estar aos poucos me transformando numa vespa, pois ultimamente tenho andado perdido pelas ruas da cidade, aproximando-me furtivamente das pessoas com minha câmera fotográfica, atraído principalmente pelo colorido de suas roupas, mas também muito pela expressão oculta em cada face, em busca do brilho em cada olhar. Há um contato indescritível e profundo antes de cada foto. 

Por anos i feel, durante minha primeira infância, logo após a Segunda Guerra, sofri à beça por urinar na cama até os nove anos de idade. Geralmente tudo começava durante um sonho tranqüilo e agradável, em que eu me via pisando em nuvens, apanhando margaridas num pequeno jardim em frente de uma casinha amarela, correndo pelas ruas, acompanhado de alguns amigos e de um primo mais velho, até que, de repente (!) Nesses sonhos, ao entardecer, parava para urinar prazerosamente em algum poste, que parecia terminar nos confins do Universo, e então, para minha triste surpresa, descobria que, na verdade, estava urinando nesta realidade, ou seja, na minha própria cama, e por isso apanhava bastante de uma madrasta. Hoje, todas as vezes que vou ao banheiro de madrugada, tenho uma sensação parecida, porém inversa, o que me causa algum constrangimento. Nunca tenho certeza suficiente de estar acordado. Não confio nos meus padrões de realidade, e penso que posso estar novamente sonhando, urinando na minha pequena cama de criança, encostada junto à parede da sala. Não quero mais olhar em seus olhos e não ver nada.
Agora estou saciando minha sede, apagando meus sonhos com gasolina

Você precisa acreditar em mim
Eu vi crianças assustadas brincando com bonecas Barbie quebradas embaixo da escada
Meninos velozes imitando Satangos
Velhos nervosos rezando
Tudo se acabando...

Pessoas rindo e tomando sopa ao mesmo tempo
Enquanto a mosca, bailando na brisa, não conseguia pousar.

Anêmicos, acadêmicos, endêmicos. Meus pensamentos estão em Demikos, o Rei das Marionetes Soltas, num lugar sossegado.

Um bom escritor não gosta nunca de ser visto como tal, escrevendo. Prefere escrever escondido. Até mesmo num penico. A fazê-lo em público, no quintal, mole, sem sal.

Sou um árabe sem deserto. Um judeu sem oásis. Minhoca em terra árida. Paçoca em terra fresca
Tudo muito yang
Tudo muito hard

Há uma parte analisável, e outra não confiável. Você sabe do que eu estou falando agora em seu ouvido...