Humores

Novamente, pela trilhonésima vez, Dona Leda aparece sem a mínima vontade para recolher os cestos de lixo. Pela trilhonésima vez, me lança aquele olhar de peixe morto, e estende a mão, pedindo o cesto atrás de mim, como um ritual eterno, ao qual devo me submeter, esteja eu fazendo o que estiver fazendo, pensando o que estiver pensando, digitando, escrevendo... Devo parar tudo, o tempo deve parar, e virar-me para trás e para a direita, curvar-me, apanhar o maldito cesto, e lhe entregar, esteja ele cheio ou vazio, nada importa. Trata-se apenas de um gesto mecânico e automático. Provavelmente ela apenas faz isso para garantir o pão do pequeno Gustavo. Depois ela some, como uma sombra na noite, ou uma lâmpada de 15 watts em direção ao sol, e tudo volta ao anormal.

13h30 - Dona Leda entra na sala e pergunta se pode tirar o pó das mesas. Respondo que sim. No maior tédio e sem a mínima vontade, ela começa a passar seu pano ensebado sobre as mesas, me rodeando aos poucos, aproximando-se perigosamente cada vez mais do monitor, até que, perecendo perceber minha aflição, solta a fatídica pergunta: “quer que eu limpe sua cabeça?”

Não dona Leda! Não! Não e Não! Quantas vezes tenho que repetir pra senhora? Eu adoro micróbios! Não se lembra? Ainda ontem eu mesmo limpei essa porra com álcool! Por que então a senhora quer limpar novamente?! Apenas para me aborrecer?

Comprei uma impressora a laser. Está saindo pus da minha cabeça.
As carpas coloridas não estão mais beijando as pedras no fundo do aquário.

Ela se afasta chorando e se esconde atrás das frutas de plástico. Posso ver seu olho esquerdo seco, em forma de ameixa passa, me observando, pingando uma lágrima de âmbar. Sinto um enorme prazer em lhe contar pequenas mentiras. Fujo do vazio,  bordando panos de prato. Vejo-a escovando os cabelos, pensando em sua mãe.