Abdome


As pessoas estão entrando na lanchonete. Hoje cedo saí de casa vestido todo de preto. Talvez não me vejam, sentado numa das mesas no fundo do salão, comendo um pedaço de bolo de milho com cobertura de doce de leite, usando esse vestido preto.

Atrás de cada disfarce todo mundo é um “Eu” em potencial, menos eu. 

O bolo está uma delícia, e ele entra em mim. 
Algumas pessoas são embaçadas; atrasam o meu lado pensando negativamente. Cuspo para longe um fiapo, que atravessa toda a lanchonete girando no ar, indo grudar na porta da cozinha.

A realidade ilusória é o que você pensa. Somos pura intenção. Porém, não pense que isso seja tudo. Aliás, isso não é nada, apenas, o que Logos se desfaz (OLD). Contudo, o que de fato é, ou seja, o que permanece o tempo todo, nós nunca saberemos. Eu também nada sei sobre isso. Apenas falo o que consigo decodificar em mim. E, assim como você, sou apenas um aspecto. 

Então, tudo o que escrevo aqui é apenas um vômito, a percepção de um desses aspectos. 
Existem milhões de outros aspectos. Já existiram milhares de outros aspectos, e, muito provavelmente, ainda existirão muitos outros aspectos. Apenas nós, Aspectos Humanos é que ficamos assim tagarelando como papagaios; escrevendo, anotando, registrando tudo ou parte, como chimpanzés, achando tratar-se, isso, de alguma realidade absoluta.

Eu, pelo contrário, não afirmo nada aqui. Apenas descrevo o que consigo ver com os olhos fechados, o que consigo captar. Mas existem outras formas de vida, que também “percebem” alguma coisa. Só que estas nada registram. Por isso, muitas vezes, fico observando os pássaros, gatos, cachorros, peixes-beta, moscas, minhocas, lagartixas, baratas, hortênsias, mato, azaleias, água, vento, sol e mar, e até mesmo as pedras, só para ver se consigo entender o que estão percebendo. 

Agora as pessoas estão saindo da lanchonete. Todo mundo é legal. A senhora de mini-saia branca transparente e tamancos de madeira; o menino magro de cabelos raspados e olhar giratório com manchas na face que a acompanha. Falam sobre passar na casa da tia Laura e apanhar o envelope com as cartinhas. Eu sempre olho bem dentro de cada uma dessas pessoas que se aproximam de mim. Eu sempre vejo um pouco de mim ali refletido. E elas me olham e se contraem. Encontram-se em mim também. Somos todos os mesmos. Cada um é um, e só existe Um. Eu não queria estar envelhecendo, mas percebo que estou. Vou até o banheiro e volto em cinco minutos...

Algumas pessoas, carregando pacotes, estão saindo da lanchonete neste exato momento. Algumas ainda estão na fila do caixa, e outras estão entrando, amarrando os sapatos junto ao degrau na porta de entrada. Do outro lado da rua, uma menina branca como uma boneca de porcelana, vomita um líquido espesso e violáceo cheio de pelotinhas junto a um poste, enquanto sua mãe, ou apenas uma senhora magra e bem vestida que a acompanha, gesticula freneticamente, olhando repetidamente para os lados como um pardal no meio à multidão. 

O helicóptero da polícia sobrevoa a praça, espantando os pombos. Sinto o cheiro de algo podre no ar. O cheiro parece vir de um tempo passado. Parece o cheiro de peixe frito, sardinha talvez; mas não vejo ninguém por perto fritando peixes hoje. Talvez o cheiro já estivesse ali. Há uma pomba ferida caída num canto da calçada. Penso em pegá-la e colocar dentro da minha mochila e levá-la para a kit para ver o que é. Talvez não seja uma pomba de verdade (?) mas apenas algum artefato natural de espionagem, um drone de alguma outra dimensão. Parece mesmo haver algo preso em uma de suas perninhas vermelhas. Essa pomba não estava aí antes quando eu passei. O helicóptero retorna, melhor eu deixar a pombinha quieta em seu lugar e cair fora. Eu não tenho nada a ver com isso. Ou tenho?