Pernas



Dia inexistente. Meu cabelo está horrível. Minha cabeça parece um caroço de manga chupado. Estou só o pó da rabiola, por dentro e por fora.  Qualquer parte do meu corpo que você escolher está deteriorada. Não é fácil envelhecer. Apenas aquilo que alguns insistem em chamar de espírito parece resistir ao tempo.

Estou farto dessa vidinha e de toda essa ARTE NONSENSE dos dias atuais. Não sei por que, hoje em dia, se produz tanta obra de arte dentro dessa porra de gênero nonsense. Deve ser mesmo pura falta de criatividade, ou hipocrisia, ou sei lá o quê. Ninguém diz a verdade diretamente. Nem a mentira. Tudo nonsense, parábolas, besteirol. Nenhuma cultura.

Parecia o som de algo borbulhando. De repente, abruptamente, a tampa do vaso sanitário ergueu-se como a escotilha de um submarino, e o Sr. Phodo surgiu majestosamente com sua cara de bosta. Olhou-se no espelho e viu que lá estava refletido praticamente  quase tudo o que havia pensado no dia anterior, durante seu passeio pela estação de metrô.

Enquanto a dona Leda almoçava, de trás das persianas eu fotografava os grãos de feijão em seu prato. Posso dar uma mordida em sua maçã? – perguntei, forçando um aparente tom de timidez na voz.

Cansei de fotografar miniaturas, a gasolina acabou. Eu amava Bertone. Há um sinal verde atrás do over drive. Trancado em seu apartamento, alguém engasgado tosse. Uma chuva de palavras repetidas ao acaso espatifa-se no caos colorido e molhado no chão do elevador.

Perdi as penas e o plumo, o rumo e o fio da meada, o sentido da realidade, e apertei o botão "T" de térreo, Fui novamente ao Bobs, com as mãos cheias de micróbios e bactérias, comer alguma coisa de verdade, rica em proteína e gordura animal.

Pedi um quibe e um limão. Já na primeira espremida, acertei meu próprio olho, o que me fez chorar de dor. Depois, a cada mordida que dava, uma criança nova, mas de tamanho avantajado, quase do tamanho de um pé de milho adulto, sentada numa  das mesas em frente, aguardando a mãe que estava na fila do caixa,  não tirava os olhos dos meus movimentos. Parecia até mesmo acompanhar os pingos de saliva que caíam em câmera lenta no meu peito. Odeio crianças, odeio passarinhos, odeio nuvens, peixinhos Beta, odeio pessoas idosas! Por fim, odeio o tempo todo e a mim mesmo por dentro.

Quando as aves chegarão para comer a sua cabeça?

Preciso fingir-me de vivo.

As pessoas lá em cima estão falando alto, quase gritando. Uma maneira deselegante de se impor, para si próprias e para as demais.

Estou alimentando meu sabiá, chamado Egotrip, com alpiste. Não quero que ele fique muito gordo, pois logo precisaremos voar...