Escritos perdidos, recuperados.

Uma coletânea de rascunhos diários, encontrados caídos atrás do armário, junto a um bolo de fios de cabelo e pó, na casa do estranho e bondoso Sr. Phodo...

Infelizmente, parece não haver nenhuma previsão cientifica de que o mundo se acabe em barranco ainda esta semana.

Assim, não entrarei mais no Céu. Sou mesmo um animal da Terra.


Às vezes penso que a dona Leda sofre de demência precoce, pois está sempre rindo, sem qualquer motivo aparente. Olha pra mim e ri...

Quando viajamos juntos no elevador da repartição, ela  faz sempre os mesmos comentários sobre meteorologia: “Acho que vai chover hoje”, ou então aquele tradicional “Que calor!”. Parece que não sei.

Estou sentindo cheiro de bunda. O senhor Falamansa deve estar por perto. O negócio dele é apenas me explorar, tirar o máximo proveito da minha famigerada existência, para os seus fins é claro, sem se importar um mínimo sequer com o meu ser, com as minhas necessidades mais básicas.

Meu medo é que não haja mesmo nenhuma solução para os nossos conflitos humanos – ou pelo menos, enquanto estivermos comprometidos com esse modelo econômico desumano e seus valores sócio-culturais.

Agora estou viajando no tempo por túneis de metrô, há bilhões de anos cavados pela Natureza, e bizarramente chamados de “Buracos de Minhoca” pelos humanos toscos. Você e eu estamos em trens diferentes, em vagões trocados, com destinos e direções opostas, rumo ao Infinito.

Na rua, a explosão de um transformador elétrico sucateado, entrando em curto, estremece as paredes da kit, fazendo alguns quadros caírem. As luzes do prédio piscam. Os seres humanos são até legais, mas a necessidade idiota que têm de  valorizar seus egos, em detrimento dos demais, acaba sempre estragando tudo.

Que ridículo! Um tiozinho de 60 anos correndo que nem doido pelas ruas do centro da cidade, trombando com pedestres, arfando, "aff, aff, uff! Dá licença! Sai da frente!" ...Só para fazer uma foto, atrás de uma garota punk de 20.   Posso fazer uma foto sua, posso?! E a garota nem aí. Lógico (!), imagina (?) como autêntica punk, ela só faltou me mandar a Meda, acenando no ar com o dedo anular em riste. Que papelão em, Sr. Bommel!?

A cigana continua lá na esquina, sentada em frente a casa Esfiha do Príncipe, com uma latinha de refrigerante vazia na mão, pedindo “Um dinheirinho em nome de deus”. Que deus? Observo que sua boca está cheia de ouro, ou pelo menos algumas lascas douradas entre os dentes quebrados e sujos de nicotina. Ontem, novamente, ela tentou me enganar. Lancei-lhe apenas meu olhar 42, segurando firme no bolso minha moedinha nº 1.

Hoje novamente a vi. Como sempre, mastigava alguma coisa, um pedaço de pão com margarina, talvez, enquanto eu corria para o Café Regina, a fim de saborear mais um café expresso, em mais uma das minhas fugas relâmpago do escritório.

Agora preciso dar um tempo. O senhor Phodo está me chamando. Depois eu continuo.

Olhando algumas revistas na banca de jornal, as imagens parecem se movimentar. À medida que eu folheio as páginas, pessoas nas fotos sorriem, levantam, sentam. Na revista Ciência Ontem, li um artigo que dizia que o Universo estava se expandido a uma velocidade espantosa, cada vez maior. Não tenho tempo para mais nada. Meu tempo se extingue cada vez mais rápido. A cada segundo, menos tempo me resta. Preciso correr para o trabalho, de forma que já não estou mais aqui agora.

À entrada do prédio, Osmano, o porteiro, me cumprimenta, dizendo bom dia, quase rosnando. No céu distante, nuvens cinzentas molham o asfalto. Meu AllStar furado está todo encharcado. Minhas meias velhas estão molhadas, meus pés brancos e enrugados, como os pés de um defunto esquecido em algum necrotério. Ninguém veio aquecer meu corpo esta noite.
As mesmas pessoas de sempre me aguardam na sala de espera, revirando sacos de pipoca de microondas amarrotados. Desta vez, misteriosamente, ao passar por elas, não as reconheci. Suas imagens em minha mente pareciam desfocadas. Suas fisionomias, as expressões em seus rostos vibravam de forma contínua e indefinida. Apesar de perceber que eram pessoas conhecidas, eu não conseguia distingui-las, de modo a poder dizer quem na verdade eram. Assim, disfarçadamente, apenas as cumprimentei com meu olhar 43, e entrei correndo para minha sala, para mais uma sessão de Yoga e criogenia.
A primeira pessoa que eu entrevistei naquela manhã perdida no tempo disse, num tom arrogante e quase sintético, “O senhor sabe com quem está falando?! Eu sou um brigadeiro!” Tive vontade de lhe responder “...pois eu sou um quindim, meu senhor. E daí?” – mas ele não merecia saber disso.

Djoul é sistemático. Todos os dias, pontualmente às 16 horas, descasca sua própria banana e a come, andando de um lado ao outro do corredor, para que todos do escritório possam vê-lo e pensar: "Como é politicamente correto, como se alimenta bem !". Eu, por outro lado, vivo com azia. Almocei uma pratada de polenta no Tempero Maneiro e depois fui ao Pão de Queijo Mineiro da José Paulino e pedi um pedaço de bolo de cenoura com cobertura de chocolate. "Qual pedaço, o senhor quer?" Perguntou a senhora de cabelos pretos e cacheados, usando óculos de professora. "Aquele! Aquele!" Disse-lhe afoito, apontando para um pedaço maior. O mais grandão! O da esquina da forma retangular, e que, por isso, tem dois lados com a tal cobertura, ao invés de apenas um, como os demais, porque eu sou um retardado, mas não sou idiota. Pelo mesmo preço, uma dose extra de chocolate... nhan, nhan! Saí de lá sorrindo, contornando a quadra do Palácio da Justiça, onde, na praça em frente, vários desocupados com tatuagens nas costas tomavam pinga quente em garrafinhas pet e banho de sol. 

Há uma parte da questão sobre a qual não podemos falar, ou melhor, a respeito da qual não adiantaria nada eu ficar aqui discutindo, expondo, verbalizando; porque, assim, não chegaríamos a nada, a nenhuma resposta, a nenhuma conclusão. Há uma parte do problema que, neste campo intelectivo racional, parece não ter solução, porquanto está encravada na própria realidade, no cerne da experiência existencial, impossível de ser abstraída, mas apenas vivida, experimentada - porque, falar sobre esse problema específico, entendê-lo, explicá-lo, justificá-lo, é uma coisa (ligada à mente apenas).  E viver esse problema específico, é outra coisa, completamente diferente - porquanto não ser uma abstração, mas, antes, um fato, uma realidade, um objeto: a COISA em si, e não simplesmente uma ideia da Coisa.  

                         Pra nascer de novo, primeiro tem de morrer.